Queria dizer que, se outro dia fiquei te dizendo da minha morte, não foi porque queria que me imaginasse assim, e que supusesse a dor desse momento. Muito longe disso.
Na verdade, tenho até a loucura de imaginar que não haverá dor, nesse momento.
Nas vezes em que vislumbrei o que lhe confidenciei no escuro: de que pensara algumas vezes que você presenciaria minha morte, o que imperava em mim era a vida. Assim, quero te explicar que esse pensamento se fez por encanto, por esperança.
Tenho comigo esse anseio de companhia na morte, onde se lê no avesso, anseio de companhia no percurso da vida. Vida e morte para mim não devem ser escritas com esse “e”. Devia-se ler em cada uma, vida-morte. É uma idéia já esgotada, mas que eu não carrego como idéia, mas como verdade surgida da vida. Vida-morte é do que se trata estar vivo. Acordar e dormir. Estar vivo é viver ressuscitando das mortes, para logo morrer de novo. Todo dia, a todo instante.
E o que aconteceu em mim, e isso é absolutamente particular, foi que a palavra vida ficou com a carga de todos os significados falsos. Vida carrega tudo o que se diz e se faz e se justifica em nome dela e que a mata: todas as violências, desrespeitos e assassinatos. Que na maioria das vezes se fazem sorrindo, enchendo a boca para dizer em–nome-da-v-i-d-a.
Para mim, Graças a Deus (e a vida?), a morte guardou alguma sombra. Nela é possível silenciar e descansar, para ver. É nas mortes que eu conheço a vida. É no escuro que eu vejo. Não que eu deixe de viver e passar pela vida clara. Mas a minha consciência mora no escuro.
Tudo isso, pra tentar te explicar minha declaração de amor. Se eu sonho com você na morte, é porque te amo.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
sábado, 2 de outubro de 2010
O gozo e a palavra II
Amada Psique,
Novamente lhe encontro no gozo.
Esse nosso amor desencarnado, em que nos tocamos por palavras.
Também lamento o que me tornei: um corpo em pedaços.
Mas, chego a fazer lágrima, por encontrar companhia nesse destino.
Psique querida, não desista agora!
Nosso amor fará nossa casa. Não aquela que sonhamos.
Mas uma cheia de letrinhas...
Novamente lhe encontro no gozo.
Esse nosso amor desencarnado, em que nos tocamos por palavras.
Também lamento o que me tornei: um corpo em pedaços.
Mas, chego a fazer lágrima, por encontrar companhia nesse destino.
Psique querida, não desista agora!
Nosso amor fará nossa casa. Não aquela que sonhamos.
Mas uma cheia de letrinhas...
Minha bandeira
“Eu nasci pra carregar bandeira”. Escrito: esperança.
Muito cedo, revoltei. Que raios de missão é essa?
Passei maior tempo entre a cruz e a espada.
Mas, quando se é recebido no mundo com bandeira, não se constrói rosto.
Passei menor tempo sem rosto e sem bandeira. E, logo peguei bandeira de novo, para me apresentar ao novo.
E, de novo, cá estou, tentando nascer.
Muito cedo, revoltei. Que raios de missão é essa?
Passei maior tempo entre a cruz e a espada.
Mas, quando se é recebido no mundo com bandeira, não se constrói rosto.
Passei menor tempo sem rosto e sem bandeira. E, logo peguei bandeira de novo, para me apresentar ao novo.
E, de novo, cá estou, tentando nascer.
quinta-feira, 3 de junho de 2010
Como num filme de Truffaut
Fecho os olhos e me vejo Christine Darbon
Ando pelas ruas de Paris e me sinto como Claude Jade
Ao lado de Truffaut...
Mais comment? Qu'est-ce que tu dises, alors?
C'est comme ça que je peux vivre
Comme dans un film de Truffaut
C'est exactement de cette manière que je peux vivre
Como se fosse eu, tudo pra mim, assim, romântico
Sensato, devagar...
Ando pelas ruas de Paris e me sinto como Claude Jade
Ao lado de Truffaut...
Mais comment? Qu'est-ce que tu dises, alors?
C'est comme ça que je peux vivre
Comme dans un film de Truffaut
C'est exactement de cette manière que je peux vivre
Como se fosse eu, tudo pra mim, assim, romântico
Sensato, devagar...
sábado, 29 de maio de 2010
A verdade que há em mim
Desde muito cedo aprendi que chegar ao fundo pode não ser a pior coisa do mundo. Pois é lá, bem no fundo, que mora a verdade. Nem sempre as verdades são prazerosas, aliás, muitas vezes são dolorosas, mas são necessárias. Não se pode abrir mão de quem se é ou do que se pensa somente para agradar, e é exatamente isso que consiste em uma vida honesta.
Ser honesta é, muitas vezes, ser egoísta, contudo é não ser hipócrita. Eu não suportaria uma vida rodeada de imagens e máscaras e por dentro a construção de um câncer. Prefiro levar tapa na cara. É nisso que, desde cedo, consiste a minha verdade.
Ser honesta é, muitas vezes, ser egoísta, contudo é não ser hipócrita. Eu não suportaria uma vida rodeada de imagens e máscaras e por dentro a construção de um câncer. Prefiro levar tapa na cara. É nisso que, desde cedo, consiste a minha verdade.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
O gozo e a palavra
Eu tenho medo do tempo e eu confesso
eu estou no limbo entre o que fui e o que ainda posso vir a ser
eu escorrego e acho que tenho certezas
eu me traio o tempo todo, eu traio o meu passado
eu traio quem eu fui
angústia não poder ter sido quem sonhei
angústia que as coisas estavam tão além de mim
E uma única decisão pode ter sido o que hoje sou
e talvez eu nem tenha escolhido ser isso
o medo me moldou, como geralmente molda a todos
e as mesmas pessoas que eu precisei para construir
hoje eu escolhi para ser, o ser eterno
até que eu não possa mais segurá-las
Eu choro todos os dias por aqueles que não consegui segurar
e sorrio por aqueles que voluntariamente em mim ficaram
mas a verdade é que sou pouco
e pouco sei das coisas
e se esse paradoxo é isso
eu não sei se se foi bom ou mau
só sei que é o que restou
das tralhas do meu passado
O gozo faz de mim um instrumento
e a única coisa que sobra é a palavra
forte ou fraca, é o único meio possível
e o mais condenável
o mais traído
o mais insignificante quando tudo é intraduzível
mais ainda é o único momento em que descubro quem eu sou
é a única chance de entrar em contato com meu ser
o gozo, a palavra
Eu queria ser o instrumento do gozo e da palavra
mas eu não escolhi isso
é o que me restou
de tudo o que escolhi ser
nada depende das minhas escolhas
pois elas são feitas somente do meu cansaço
canso das palavras, das palavras das pessoas, das pessoas com palavras
e o seu mau uso, mau acaso que me fez assim
sem palavras
Eu hoje não me reconheço
e por isso peço aqui
esmoreço, e sem mim, não posso sair
a prisão que criei de minhas angústias
não podem me livrar de quem eu sou
eu estou no limbo entre o que fui e o que ainda posso vir a ser
eu escorrego e acho que tenho certezas
eu me traio o tempo todo, eu traio o meu passado
eu traio quem eu fui
angústia não poder ter sido quem sonhei
angústia que as coisas estavam tão além de mim
E uma única decisão pode ter sido o que hoje sou
e talvez eu nem tenha escolhido ser isso
o medo me moldou, como geralmente molda a todos
e as mesmas pessoas que eu precisei para construir
hoje eu escolhi para ser, o ser eterno
até que eu não possa mais segurá-las
Eu choro todos os dias por aqueles que não consegui segurar
e sorrio por aqueles que voluntariamente em mim ficaram
mas a verdade é que sou pouco
e pouco sei das coisas
e se esse paradoxo é isso
eu não sei se se foi bom ou mau
só sei que é o que restou
das tralhas do meu passado
O gozo faz de mim um instrumento
e a única coisa que sobra é a palavra
forte ou fraca, é o único meio possível
e o mais condenável
o mais traído
o mais insignificante quando tudo é intraduzível
mais ainda é o único momento em que descubro quem eu sou
é a única chance de entrar em contato com meu ser
o gozo, a palavra
Eu queria ser o instrumento do gozo e da palavra
mas eu não escolhi isso
é o que me restou
de tudo o que escolhi ser
nada depende das minhas escolhas
pois elas são feitas somente do meu cansaço
canso das palavras, das palavras das pessoas, das pessoas com palavras
e o seu mau uso, mau acaso que me fez assim
sem palavras
Eu hoje não me reconheço
e por isso peço aqui
esmoreço, e sem mim, não posso sair
a prisão que criei de minhas angústias
não podem me livrar de quem eu sou
terça-feira, 27 de abril de 2010
Eu costumo caminhar pelas ruas
Eu ando pelas ruas e olho as pessoas que passam por mim. Andar pela cidade, olhar milhões de pessoas que talvez você nunca mais verá, trombar, sorrir, desviar, a rotina da cidade enlouquece. As pessoas são doentes, e eu também. A diferença é que sei que estou doente; elas, não. Praticam atos sem saber o por quê. Reproduzem todos os atos que já viram anteriormente, mas acham que estão inovando, inventando, criando. Eu sei que não. Busco descobrir caminhos por mim mesma, caminhos que não sou capaz de ver até que me dê conta de que existem. Muitos já descobriram esse mesmo caminho, muitos já se acharam, já se decidiram, mas cada um tem que achar seu próprio caminho, no seu próprio tempo. Tenho medo da doença das pessoas. É por isso que, às vezes, isolo-me, distancio-me, afasto-me da convivência humana. Todos caminham, como se algo os levasse, um força externa a eles, não conseguem perceber que a maioria de suas atitudes são imotivadas. Ninguém consegue perceber quantos atos desperdiçamos achando que temos razão em praticá-los. E quantos são os atos que verdadeiramente importam? Quais são os atos que verdadeiramente nos mudam e aos outros? Eu sei que eu também sou doente. Costumo olhar nos rostos das pessoas na rua e tento imaginar pelo que estão passando, será que sofrem como eu? Percebo que são mais doentes que eu porque não conseguem perceber os reais sofrimentos que passam, porque não os assumem. Preferem rir e mostrar ao mundo que tudo está bem e que não há problemas, que são belas e podem desfilar pela rua sem que causem nenhuma dor ou má impressão.
domingo, 25 de abril de 2010
Para Juliano Pessanha
Eu sou uma pessoa que se sente segura e confortável jogando paciência e fazendo cruzadinha. Por muito tempo vesti-me como um menino, mas hoje sei me fantasiar de mulher. E, quando um homem acredita nisso, consigo ter o prazer de acreditar também. Ou seja, acho que tenho um lugar. Suponho que nasci para dentro do mundo.
Mas aconteceu. Fui visitada pelo acontecimento. Fui lançada no estranho. E hoje acontece-me de estranhar-me. Já não consigo sustentar-me. Quando vestida de menino, também recusava a farsa, mas não sabia. Na verdade, se penso para trás, sei que nunca sustentei eu e sempre soube que o eu caminhava para o precipício, mesmo que apegado a um sentimento, como por exemplo abraçado na revolta.
Voltando ao hoje, no instante seguinte ao “sou uma mulher” segue-me o estranhamento e percebo que apenas sou. Olho no espelho e digo “Eu sou...”. E nada me qualifica. Tento dizer meu nome, tento me adjetivar, mas o que me acontece é uma compressão. Olhos, boca, útero, abdomem, pulmões se comprimem, numa tentativa de fechamento. Mas continuo vendo, porque é no escuro que se vê com essa clareza aquilo que, paradoxalmente, desvela-se como a confortante Verdade. Não sou. Sou Nada. E sinto nisso uma dor que não dói. Porque dor passa. É o desconforto de sentar-se no lugar nenhum, de não ser.
Juliano, ainda não encontrei paz nisso. Embora já não seja assolada pelo pânico da estranheza-doença-medonha e já não acredite na farsa de me recuperar. Já não acredito na recuperação e rendo-me ao que se segue. Rendo-me ao Devir... Mas, por mais poesia que se possa fazer disso e nisso, eu ainda duvido de sua Beleza.
Acho que meu mal está aí: eu não confio. O que se cura com uma certa esperança. Acredito que possa sorrir um dia diante desse horizonte. Mas ainda penso no meu pai quando pressinto o vir a ser – que será contínuo vir a ser – e sei que ele, meu pai, não vai gostar. Meus irmãos também não.
Estou no difícil exercício da liberdade. Tenho uma escolha a fazer. Tenho que abandonar para deixar de ser Abandono. E sei que posso me repatriar. Mas nessa outra pátria, a solidão é rei. E assim tenho que escolher entre o abandono e a solidão.
O abandono é familiar e tem a força do apelo. Corrompe e seduz. Já a solidão é terra de ninguém. Não cabe eu. É sem nome. Lugar de contemplação em que acontece. Lugar em que "a vida é soberana" (como você mesmo disse).
Sei que você mora aí, Juliano. Vou visitá-lo. Já estou a caminho. Mesmo sem saber se há caminho de volta.
Mas aconteceu. Fui visitada pelo acontecimento. Fui lançada no estranho. E hoje acontece-me de estranhar-me. Já não consigo sustentar-me. Quando vestida de menino, também recusava a farsa, mas não sabia. Na verdade, se penso para trás, sei que nunca sustentei eu e sempre soube que o eu caminhava para o precipício, mesmo que apegado a um sentimento, como por exemplo abraçado na revolta.
Voltando ao hoje, no instante seguinte ao “sou uma mulher” segue-me o estranhamento e percebo que apenas sou. Olho no espelho e digo “Eu sou...”. E nada me qualifica. Tento dizer meu nome, tento me adjetivar, mas o que me acontece é uma compressão. Olhos, boca, útero, abdomem, pulmões se comprimem, numa tentativa de fechamento. Mas continuo vendo, porque é no escuro que se vê com essa clareza aquilo que, paradoxalmente, desvela-se como a confortante Verdade. Não sou. Sou Nada. E sinto nisso uma dor que não dói. Porque dor passa. É o desconforto de sentar-se no lugar nenhum, de não ser.
Juliano, ainda não encontrei paz nisso. Embora já não seja assolada pelo pânico da estranheza-doença-medonha e já não acredite na farsa de me recuperar. Já não acredito na recuperação e rendo-me ao que se segue. Rendo-me ao Devir... Mas, por mais poesia que se possa fazer disso e nisso, eu ainda duvido de sua Beleza.
Acho que meu mal está aí: eu não confio. O que se cura com uma certa esperança. Acredito que possa sorrir um dia diante desse horizonte. Mas ainda penso no meu pai quando pressinto o vir a ser – que será contínuo vir a ser – e sei que ele, meu pai, não vai gostar. Meus irmãos também não.
Estou no difícil exercício da liberdade. Tenho uma escolha a fazer. Tenho que abandonar para deixar de ser Abandono. E sei que posso me repatriar. Mas nessa outra pátria, a solidão é rei. E assim tenho que escolher entre o abandono e a solidão.
O abandono é familiar e tem a força do apelo. Corrompe e seduz. Já a solidão é terra de ninguém. Não cabe eu. É sem nome. Lugar de contemplação em que acontece. Lugar em que "a vida é soberana" (como você mesmo disse).
Sei que você mora aí, Juliano. Vou visitá-lo. Já estou a caminho. Mesmo sem saber se há caminho de volta.
domingo, 11 de abril de 2010
O não-poder das palavras
-Por que é que toda vez você diz isso?
-E você que quando eu digo isso, diz sempre aquilo?
-Não mude de assunto! Estamos falando disso!
-Podemos falar também daquilo!Depende do foco e da importância!
-Primeiro falamos disso, depois daquilo, ok?
-Primeiro falamos daquilo, depois disso, pode ser?
-Eu não aguento mais! Eu quero saber primeiro por que você faz sempre isso!
-Eu igualmente quero saber por que você faz sempre aquilo!
-Assim não dá! É insuportável!
-Isso que eu faço ou aquilo que você faz?
-Eu não faço isso! É você que faz!
-Mas você faz aquilo, o que dá no mesmo!
-Chega! Esse é o meu limite! Você sempre faz isso!
-E você sempre faz isto quando não quer conversar!
-Eu não faço isto, é você que faz isso para me irritar!
-Eu não faço isto, eu não faço isso, mas você faz...aquilo!
-E você que quando eu digo isso, diz sempre aquilo?
-Não mude de assunto! Estamos falando disso!
-Podemos falar também daquilo!Depende do foco e da importância!
-Primeiro falamos disso, depois daquilo, ok?
-Primeiro falamos daquilo, depois disso, pode ser?
-Eu não aguento mais! Eu quero saber primeiro por que você faz sempre isso!
-Eu igualmente quero saber por que você faz sempre aquilo!
-Assim não dá! É insuportável!
-Isso que eu faço ou aquilo que você faz?
-Eu não faço isso! É você que faz!
-Mas você faz aquilo, o que dá no mesmo!
-Chega! Esse é o meu limite! Você sempre faz isso!
-E você sempre faz isto quando não quer conversar!
-Eu não faço isto, é você que faz isso para me irritar!
-Eu não faço isto, eu não faço isso, mas você faz...aquilo!
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Amadora
A força da realidade se impôs para mim de forma tão avassaladora que desaprendi a brincar de amor. Fazia essa brincadeira desde tenra infância e ela dava a graça do mundo.
Além da graça, também serviu para mascarar a mim e aos outros por um bom tempo. Fiz um mau uso da minha capacidade de amar, eu admito.
Mas, não dá para estar sem ela. Como sobreviver sem amor? Chapada na realidade? Não vale a pena. As pessoas me comovem, afetam e eu não posso dispor desse sentimento que sempre foi meu motor. O que eu faço então diante do mundo? Sem amor tenho que ficar longe das pessoas. Ser estrangeira para que todos permaneçam estranhos, quase não-humanos. Quem sabe eu possa assim, fazer ciência?
Ontem tive essa vontade de parar com tudo. Desprovida de amor, não fazia sentido encontrar o Fernando, a Claudia, o Alexandre, o Outro. O que fazer diante deles? Não tinha nada a oferecer, não tinha como ser. Tive medo. E então, parei.
Fiquei em casa, na cama. Quis sumir. Na verdade só assumi a forma vulto, pois já estava sumida. E num piscar de olhos, diante de uma oferta, fui tomada por uma vontade de estar diante de certos olhos. Fui recomposta no tempo de um milagre. E diante desses certos olhos, fui eu quem tive uma visão: que força era essa capaz de levantar a coberta durante o inverno da alma?
É uma força-homem. Tem a brutalidade e a sensibilidade do animal. Tem o que há de mais primitivo e de mais sofisticado no mundo. Força-homem-animal com nome próprio. É encantador. Cantor da dor e do encanto do mundo. Tem a textura do amor sem texto. Tem a poesia na carne. É todo paradoxo. É o que nunca e para sempre quero.
Além da graça, também serviu para mascarar a mim e aos outros por um bom tempo. Fiz um mau uso da minha capacidade de amar, eu admito.
Mas, não dá para estar sem ela. Como sobreviver sem amor? Chapada na realidade? Não vale a pena. As pessoas me comovem, afetam e eu não posso dispor desse sentimento que sempre foi meu motor. O que eu faço então diante do mundo? Sem amor tenho que ficar longe das pessoas. Ser estrangeira para que todos permaneçam estranhos, quase não-humanos. Quem sabe eu possa assim, fazer ciência?
Ontem tive essa vontade de parar com tudo. Desprovida de amor, não fazia sentido encontrar o Fernando, a Claudia, o Alexandre, o Outro. O que fazer diante deles? Não tinha nada a oferecer, não tinha como ser. Tive medo. E então, parei.
Fiquei em casa, na cama. Quis sumir. Na verdade só assumi a forma vulto, pois já estava sumida. E num piscar de olhos, diante de uma oferta, fui tomada por uma vontade de estar diante de certos olhos. Fui recomposta no tempo de um milagre. E diante desses certos olhos, fui eu quem tive uma visão: que força era essa capaz de levantar a coberta durante o inverno da alma?
É uma força-homem. Tem a brutalidade e a sensibilidade do animal. Tem o que há de mais primitivo e de mais sofisticado no mundo. Força-homem-animal com nome próprio. É encantador. Cantor da dor e do encanto do mundo. Tem a textura do amor sem texto. Tem a poesia na carne. É todo paradoxo. É o que nunca e para sempre quero.
segunda-feira, 29 de março de 2010
Os Lugares Comuns
"Quando o homem que ia casar comigo
chegou a primeira vez na minha casa,
eu estava saindo do banheiro, devastada
de angelismo e carência. Mesmo assim,
ele me olhou com olhos admirados
e segurou minha mão mais que
um tempo normal a pessoas
acabando de se conhecer.
Nunca mencionou o fato.
Até hoje me ama com amor
de vagarezas, súbitos chegares.
Quando eu sei que vem,
eu fecho a porta para a grata surpresa.
Vou abri-la como fazem as noivas
e as amantes. Seu nome é:
Salvador do meu corpo".
Adélia Prado
chegou a primeira vez na minha casa,
eu estava saindo do banheiro, devastada
de angelismo e carência. Mesmo assim,
ele me olhou com olhos admirados
e segurou minha mão mais que
um tempo normal a pessoas
acabando de se conhecer.
Nunca mencionou o fato.
Até hoje me ama com amor
de vagarezas, súbitos chegares.
Quando eu sei que vem,
eu fecho a porta para a grata surpresa.
Vou abri-la como fazem as noivas
e as amantes. Seu nome é:
Salvador do meu corpo".
Adélia Prado
terça-feira, 16 de março de 2010
Coisas de personalidade
Sempre fui uma pessoa diferente, mas nunca contei a ninguém. Agora é chegada a hora. Tudo o que as pessoas têm em número de um, tenho em dobro. Tenho, por exemplo, dois corações, quatro pulmões e quatro rins. Nesse aspecto, porém, fui me acostumando com o passar dos anos e nunca demonstrei qualquer tipo de fraqueza a ninguém. O problema é que a quantidade não é só física: ela existe em todos os aspectos do meu ser. Sou por exemplo, leão com ascendente em leão e com lua em leão. Felicidade para mim é um conceito destruidor: posso ser acometida por um ataque cardíaco ou algo do gênero. Enfim, lidar com tudo isso sempre foi uma questão em minha vida, questão de vida ou morte. Para percorrer meus órgãos internos ou para chegar aos recôndidos de minha mente, levo anos, quiçá décadas. Outro dia, descobri que não estou sozinha no mundo: fui apresentada a Borges e Cortázar. Finalmente posso agora, assumir minha condição de especial. Finalmente pude saber a verdade sobre meu ser.
segunda-feira, 15 de março de 2010
Sobre quem lhes escreve
Freud é conhecido por falar sobre a sexualidade. Quando formulou sua teoria da sexualidade, ele falava sobre o erótico e usou esse termo por causa do mito de Eros. Eros e erótico invocam o encanto, a graciosidade, a astúcia de Eros, além de seu profundo amor por Psique, a alma, a quem Eros está unido em eterno amor e devoção. Assim, é impossível pensar em Eros sem lembrar de Psique. E, no mito, Psique foi levada a crer que Eros era repelente e lhe traria as mais trágicas conseqüências.
Freud inventou o termo psicanálise, o estudo da alma, referindo-se a Deusa Psique e suas paixões. Ele desejava isolar e examinar os aspectos ocultos da alma, para compreender os papéis que eles desempenham em nossas vidas. A história de Psique é paradigmática, pois ela precisou entrar no Inferno e lá recuperar algo, antes de atingir sua glorificação. Assim, Freud também se atreveu a penetrar nas profundezas tenebrosas da alma para obter sua revelação.
Creio que nossa condição humana não permita escolha quanto a habitar ou não essas profundezas tenebrosas. Mas, há escolha quanto ao que fazer diante dela. Lançamo-nos. Agonizamos em dor e prazer. E uma vez sobreviventes, surge em nós a escrita.
Freud inventou o termo psicanálise, o estudo da alma, referindo-se a Deusa Psique e suas paixões. Ele desejava isolar e examinar os aspectos ocultos da alma, para compreender os papéis que eles desempenham em nossas vidas. A história de Psique é paradigmática, pois ela precisou entrar no Inferno e lá recuperar algo, antes de atingir sua glorificação. Assim, Freud também se atreveu a penetrar nas profundezas tenebrosas da alma para obter sua revelação.
Creio que nossa condição humana não permita escolha quanto a habitar ou não essas profundezas tenebrosas. Mas, há escolha quanto ao que fazer diante dela. Lançamo-nos. Agonizamos em dor e prazer. E uma vez sobreviventes, surge em nós a escrita.
sexta-feira, 12 de março de 2010
Feminino
Dividir-se é difícil. Mas a escrita exige isso. Um despregamento. Despregada sinto um corpo. O corpo é o que vive em excitações e relaxamentos. Pulsa. Sou pulsante: vivo.
Minha condição, assim como a escrita impõe um 'entre'. Há um entre. Entre que se apresenta como ente. O que pensa. Precisa pensar para não morrer entre um viva e outro.
O pulsar acontece-me. Incontrolável. Já o meu entre, eu controlo. Tenho um ente. Ele é o que sente e é inteligente.
Mas meu sofrimento não se faz apenas por dividir-me. É que meu pulsar se faz por demais intenso. Vivo muito próxima dos animais. Sou animal. Os gatos deram a forma da minha animalidade. Por isso, meu ente, coitado, tem que entender de gatos. Pensar instintivamente.
Sou fêmea.
Minha condição, assim como a escrita impõe um 'entre'. Há um entre. Entre que se apresenta como ente. O que pensa. Precisa pensar para não morrer entre um viva e outro.
O pulsar acontece-me. Incontrolável. Já o meu entre, eu controlo. Tenho um ente. Ele é o que sente e é inteligente.
Mas meu sofrimento não se faz apenas por dividir-me. É que meu pulsar se faz por demais intenso. Vivo muito próxima dos animais. Sou animal. Os gatos deram a forma da minha animalidade. Por isso, meu ente, coitado, tem que entender de gatos. Pensar instintivamente.
Sou fêmea.
terça-feira, 9 de março de 2010
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Álvaro de Campos - Poema em Linha Reta
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
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