quinta-feira, 8 de abril de 2010

Amadora

A força da realidade se impôs para mim de forma tão avassaladora que desaprendi a brincar de amor. Fazia essa brincadeira desde tenra infância e ela dava a graça do mundo.
Além da graça, também serviu para mascarar a mim e aos outros por um bom tempo. Fiz um mau uso da minha capacidade de amar, eu admito.
Mas, não dá para estar sem ela. Como sobreviver sem amor? Chapada na realidade? Não vale a pena. As pessoas me comovem, afetam e eu não posso dispor desse sentimento que sempre foi meu motor. O que eu faço então diante do mundo? Sem amor tenho que ficar longe das pessoas. Ser estrangeira para que todos permaneçam estranhos, quase não-humanos. Quem sabe eu possa assim, fazer ciência?
Ontem tive essa vontade de parar com tudo. Desprovida de amor, não fazia sentido encontrar o Fernando, a Claudia, o Alexandre, o Outro. O que fazer diante deles? Não tinha nada a oferecer, não tinha como ser. Tive medo. E então, parei.
Fiquei em casa, na cama. Quis sumir. Na verdade só assumi a forma vulto, pois já estava sumida. E num piscar de olhos, diante de uma oferta, fui tomada por uma vontade de estar diante de certos olhos. Fui recomposta no tempo de um milagre. E diante desses certos olhos, fui eu quem tive uma visão: que força era essa capaz de levantar a coberta durante o inverno da alma?
É uma força-homem. Tem a brutalidade e a sensibilidade do animal. Tem o que há de mais primitivo e de mais sofisticado no mundo. Força-homem-animal com nome próprio. É encantador. Cantor da dor e do encanto do mundo. Tem a textura do amor sem texto. Tem a poesia na carne. É todo paradoxo. É o que nunca e para sempre quero.