segunda-feira, 29 de março de 2010

Os Lugares Comuns

"Quando o homem que ia casar comigo
chegou a primeira vez na minha casa,
eu estava saindo do banheiro, devastada
de angelismo e carência. Mesmo assim,
ele me olhou com olhos admirados
e segurou minha mão mais que
um tempo normal a pessoas
acabando de se conhecer.
Nunca mencionou o fato.
Até hoje me ama com amor
de vagarezas, súbitos chegares.
Quando eu sei que vem,
eu fecho a porta para a grata surpresa.
Vou abri-la como fazem as noivas
e as amantes. Seu nome é:
Salvador do meu corpo".

Adélia Prado

terça-feira, 16 de março de 2010

Coisas de personalidade

Sempre fui uma pessoa diferente, mas nunca contei a ninguém. Agora é chegada a hora. Tudo o que as pessoas têm em número de um, tenho em dobro. Tenho, por exemplo, dois corações, quatro pulmões e quatro rins. Nesse aspecto, porém, fui me acostumando com o passar dos anos e nunca demonstrei qualquer tipo de fraqueza a ninguém. O problema é que a quantidade não é só física: ela existe em todos os aspectos do meu ser. Sou por exemplo, leão com ascendente em leão e com lua em leão. Felicidade para mim é um conceito destruidor: posso ser acometida por um ataque cardíaco ou algo do gênero. Enfim, lidar com tudo isso sempre foi uma questão em minha vida, questão de vida ou morte. Para percorrer meus órgãos internos ou para chegar aos recôndidos de minha mente, levo anos, quiçá décadas. Outro dia, descobri que não estou sozinha no mundo: fui apresentada a Borges e Cortázar. Finalmente posso agora, assumir minha condição de especial. Finalmente pude saber a verdade sobre meu ser.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Sobre quem lhes escreve

Freud é conhecido por falar sobre a sexualidade. Quando formulou sua teoria da sexualidade, ele falava sobre o erótico e usou esse termo por causa do mito de Eros. Eros e erótico invocam o encanto, a graciosidade, a astúcia de Eros, além de seu profundo amor por Psique, a alma, a quem Eros está unido em eterno amor e devoção. Assim, é impossível pensar em Eros sem lembrar de Psique. E, no mito, Psique foi levada a crer que Eros era repelente e lhe traria as mais trágicas conseqüências.
Freud inventou o termo psicanálise, o estudo da alma, referindo-se a Deusa Psique e suas paixões. Ele desejava isolar e examinar os aspectos ocultos da alma, para compreender os papéis que eles desempenham em nossas vidas. A história de Psique é paradigmática, pois ela precisou entrar no Inferno e lá recuperar algo, antes de atingir sua glorificação. Assim, Freud também se atreveu a penetrar nas profundezas tenebrosas da alma para obter sua revelação.
Creio que nossa condição humana não permita escolha quanto a habitar ou não essas profundezas tenebrosas. Mas, há escolha quanto ao que fazer diante dela. Lançamo-nos. Agonizamos em dor e prazer. E uma vez sobreviventes, surge em nós a escrita.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Feminino

Dividir-se é difícil. Mas a escrita exige isso. Um despregamento. Despregada sinto um corpo. O corpo é o que vive em excitações e relaxamentos. Pulsa. Sou pulsante: vivo.
Minha condição, assim como a escrita impõe um 'entre'. Há um entre. Entre que se apresenta como ente. O que pensa. Precisa pensar para não morrer entre um viva e outro.
O pulsar acontece-me. Incontrolável. Já o meu entre, eu controlo. Tenho um ente. Ele é o que sente e é inteligente.
Mas meu sofrimento não se faz apenas por dividir-me. É que meu pulsar se faz por demais intenso. Vivo muito próxima dos animais. Sou animal. Os gatos deram a forma da minha animalidade. Por isso, meu ente, coitado, tem que entender de gatos. Pensar instintivamente.
Sou fêmea.

terça-feira, 9 de março de 2010

DO SUBLIME AO BANAL (poema coletivo)

Mulher é seiva bruta
brilhante e viscosa
escorre como o conhecimento
que brota entre as linhas do que lemos
e agora?
molhei minhas mãos!
babei!
delícia!