terça-feira, 27 de abril de 2010

Eu costumo caminhar pelas ruas

Eu ando pelas ruas e olho as pessoas que passam por mim. Andar pela cidade, olhar milhões de pessoas que talvez você nunca mais verá, trombar, sorrir, desviar, a rotina da cidade enlouquece. As pessoas são doentes, e eu também. A diferença é que sei que estou doente; elas, não. Praticam atos sem saber o por quê. Reproduzem todos os atos que já viram anteriormente, mas acham que estão inovando, inventando, criando. Eu sei que não. Busco descobrir caminhos por mim mesma, caminhos que não sou capaz de ver até que me dê conta de que existem. Muitos já descobriram esse mesmo caminho, muitos já se acharam, já se decidiram, mas cada um tem que achar seu próprio caminho, no seu próprio tempo. Tenho medo da doença das pessoas. É por isso que, às vezes, isolo-me, distancio-me, afasto-me da convivência humana. Todos caminham, como se algo os levasse, um força externa a eles, não conseguem perceber que a maioria de suas atitudes são imotivadas. Ninguém consegue perceber quantos atos desperdiçamos achando que temos razão em praticá-los. E quantos são os atos que verdadeiramente importam? Quais são os atos que verdadeiramente nos mudam e aos outros? Eu sei que eu também sou doente. Costumo olhar nos rostos das pessoas na rua e tento imaginar pelo que estão passando, será que sofrem como eu? Percebo que são mais doentes que eu porque não conseguem perceber os reais sofrimentos que passam, porque não os assumem. Preferem rir e mostrar ao mundo que tudo está bem e que não há problemas, que são belas e podem desfilar pela rua sem que causem nenhuma dor ou má impressão.

domingo, 25 de abril de 2010

Para Juliano Pessanha

Eu sou uma pessoa que se sente segura e confortável jogando paciência e fazendo cruzadinha. Por muito tempo vesti-me como um menino, mas hoje sei me fantasiar de mulher. E, quando um homem acredita nisso, consigo ter o prazer de acreditar também. Ou seja, acho que tenho um lugar. Suponho que nasci para dentro do mundo.
Mas aconteceu. Fui visitada pelo acontecimento. Fui lançada no estranho. E hoje acontece-me de estranhar-me. Já não consigo sustentar-me. Quando vestida de menino, também recusava a farsa, mas não sabia. Na verdade, se penso para trás, sei que nunca sustentei eu e sempre soube que o eu caminhava para o precipício, mesmo que apegado a um sentimento, como por exemplo abraçado na revolta.
Voltando ao hoje, no instante seguinte ao “sou uma mulher” segue-me o estranhamento e percebo que apenas sou. Olho no espelho e digo “Eu sou...”. E nada me qualifica. Tento dizer meu nome, tento me adjetivar, mas o que me acontece é uma compressão. Olhos, boca, útero, abdomem, pulmões se comprimem, numa tentativa de fechamento. Mas continuo vendo, porque é no escuro que se vê com essa clareza aquilo que, paradoxalmente, desvela-se como a confortante Verdade. Não sou. Sou Nada. E sinto nisso uma dor que não dói. Porque dor passa. É o desconforto de sentar-se no lugar nenhum, de não ser.
Juliano, ainda não encontrei paz nisso. Embora já não seja assolada pelo pânico da estranheza-doença-medonha e já não acredite na farsa de me recuperar. Já não acredito na recuperação e rendo-me ao que se segue. Rendo-me ao Devir... Mas, por mais poesia que se possa fazer disso e nisso, eu ainda duvido de sua Beleza.
Acho que meu mal está aí: eu não confio. O que se cura com uma certa esperança. Acredito que possa sorrir um dia diante desse horizonte. Mas ainda penso no meu pai quando pressinto o vir a ser – que será contínuo vir a ser – e sei que ele, meu pai, não vai gostar. Meus irmãos também não.
Estou no difícil exercício da liberdade. Tenho uma escolha a fazer. Tenho que abandonar para deixar de ser Abandono. E sei que posso me repatriar. Mas nessa outra pátria, a solidão é rei. E assim tenho que escolher entre o abandono e a solidão.
O abandono é familiar e tem a força do apelo. Corrompe e seduz. Já a solidão é terra de ninguém. Não cabe eu. É sem nome. Lugar de contemplação em que acontece. Lugar em que "a vida é soberana" (como você mesmo disse).
Sei que você mora aí, Juliano. Vou visitá-lo. Já estou a caminho. Mesmo sem saber se há caminho de volta.

domingo, 11 de abril de 2010

O não-poder das palavras

-Por que é que toda vez você diz isso?
-E você que quando eu digo isso, diz sempre aquilo?
-Não mude de assunto! Estamos falando disso!
-Podemos falar também daquilo!Depende do foco e da importância!
-Primeiro falamos disso, depois daquilo, ok?
-Primeiro falamos daquilo, depois disso, pode ser?
-Eu não aguento mais! Eu quero saber primeiro por que você faz sempre isso!
-Eu igualmente quero saber por que você faz sempre aquilo!
-Assim não dá! É insuportável!
-Isso que eu faço ou aquilo que você faz?
-Eu não faço isso! É você que faz!
-Mas você faz aquilo, o que dá no mesmo!
-Chega! Esse é o meu limite! Você sempre faz isso!
-E você sempre faz isto quando não quer conversar!
-Eu não faço isto, é você que faz isso para me irritar!
-Eu não faço isto, eu não faço isso, mas você faz...aquilo!

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Amadora

A força da realidade se impôs para mim de forma tão avassaladora que desaprendi a brincar de amor. Fazia essa brincadeira desde tenra infância e ela dava a graça do mundo.
Além da graça, também serviu para mascarar a mim e aos outros por um bom tempo. Fiz um mau uso da minha capacidade de amar, eu admito.
Mas, não dá para estar sem ela. Como sobreviver sem amor? Chapada na realidade? Não vale a pena. As pessoas me comovem, afetam e eu não posso dispor desse sentimento que sempre foi meu motor. O que eu faço então diante do mundo? Sem amor tenho que ficar longe das pessoas. Ser estrangeira para que todos permaneçam estranhos, quase não-humanos. Quem sabe eu possa assim, fazer ciência?
Ontem tive essa vontade de parar com tudo. Desprovida de amor, não fazia sentido encontrar o Fernando, a Claudia, o Alexandre, o Outro. O que fazer diante deles? Não tinha nada a oferecer, não tinha como ser. Tive medo. E então, parei.
Fiquei em casa, na cama. Quis sumir. Na verdade só assumi a forma vulto, pois já estava sumida. E num piscar de olhos, diante de uma oferta, fui tomada por uma vontade de estar diante de certos olhos. Fui recomposta no tempo de um milagre. E diante desses certos olhos, fui eu quem tive uma visão: que força era essa capaz de levantar a coberta durante o inverno da alma?
É uma força-homem. Tem a brutalidade e a sensibilidade do animal. Tem o que há de mais primitivo e de mais sofisticado no mundo. Força-homem-animal com nome próprio. É encantador. Cantor da dor e do encanto do mundo. Tem a textura do amor sem texto. Tem a poesia na carne. É todo paradoxo. É o que nunca e para sempre quero.