Eu tenho medo do tempo e eu confesso
eu estou no limbo entre o que fui e o que ainda posso vir a ser
eu escorrego e acho que tenho certezas
eu me traio o tempo todo, eu traio o meu passado
eu traio quem eu fui
angústia não poder ter sido quem sonhei
angústia que as coisas estavam tão além de mim
E uma única decisão pode ter sido o que hoje sou
e talvez eu nem tenha escolhido ser isso
o medo me moldou, como geralmente molda a todos
e as mesmas pessoas que eu precisei para construir
hoje eu escolhi para ser, o ser eterno
até que eu não possa mais segurá-las
Eu choro todos os dias por aqueles que não consegui segurar
e sorrio por aqueles que voluntariamente em mim ficaram
mas a verdade é que sou pouco
e pouco sei das coisas
e se esse paradoxo é isso
eu não sei se se foi bom ou mau
só sei que é o que restou
das tralhas do meu passado
O gozo faz de mim um instrumento
e a única coisa que sobra é a palavra
forte ou fraca, é o único meio possível
e o mais condenável
o mais traído
o mais insignificante quando tudo é intraduzível
mais ainda é o único momento em que descubro quem eu sou
é a única chance de entrar em contato com meu ser
o gozo, a palavra
Eu queria ser o instrumento do gozo e da palavra
mas eu não escolhi isso
é o que me restou
de tudo o que escolhi ser
nada depende das minhas escolhas
pois elas são feitas somente do meu cansaço
canso das palavras, das palavras das pessoas, das pessoas com palavras
e o seu mau uso, mau acaso que me fez assim
sem palavras
Eu hoje não me reconheço
e por isso peço aqui
esmoreço, e sem mim, não posso sair
a prisão que criei de minhas angústias
não podem me livrar de quem eu sou