Eu sou uma pessoa que se sente segura e confortável jogando paciência e fazendo cruzadinha. Por muito tempo vesti-me como um menino, mas hoje sei me fantasiar de mulher. E, quando um homem acredita nisso, consigo ter o prazer de acreditar também. Ou seja, acho que tenho um lugar. Suponho que nasci para dentro do mundo.
Mas aconteceu. Fui visitada pelo acontecimento. Fui lançada no estranho. E hoje acontece-me de estranhar-me. Já não consigo sustentar-me. Quando vestida de menino, também recusava a farsa, mas não sabia. Na verdade, se penso para trás, sei que nunca sustentei eu e sempre soube que o eu caminhava para o precipício, mesmo que apegado a um sentimento, como por exemplo abraçado na revolta.
Voltando ao hoje, no instante seguinte ao “sou uma mulher” segue-me o estranhamento e percebo que apenas sou. Olho no espelho e digo “Eu sou...”. E nada me qualifica. Tento dizer meu nome, tento me adjetivar, mas o que me acontece é uma compressão. Olhos, boca, útero, abdomem, pulmões se comprimem, numa tentativa de fechamento. Mas continuo vendo, porque é no escuro que se vê com essa clareza aquilo que, paradoxalmente, desvela-se como a confortante Verdade. Não sou. Sou Nada. E sinto nisso uma dor que não dói. Porque dor passa. É o desconforto de sentar-se no lugar nenhum, de não ser.
Juliano, ainda não encontrei paz nisso. Embora já não seja assolada pelo pânico da estranheza-doença-medonha e já não acredite na farsa de me recuperar. Já não acredito na recuperação e rendo-me ao que se segue. Rendo-me ao Devir... Mas, por mais poesia que se possa fazer disso e nisso, eu ainda duvido de sua Beleza.
Acho que meu mal está aí: eu não confio. O que se cura com uma certa esperança. Acredito que possa sorrir um dia diante desse horizonte. Mas ainda penso no meu pai quando pressinto o vir a ser – que será contínuo vir a ser – e sei que ele, meu pai, não vai gostar. Meus irmãos também não.
Estou no difícil exercício da liberdade. Tenho uma escolha a fazer. Tenho que abandonar para deixar de ser Abandono. E sei que posso me repatriar. Mas nessa outra pátria, a solidão é rei. E assim tenho que escolher entre o abandono e a solidão.
O abandono é familiar e tem a força do apelo. Corrompe e seduz. Já a solidão é terra de ninguém. Não cabe eu. É sem nome. Lugar de contemplação em que acontece. Lugar em que "a vida é soberana" (como você mesmo disse).
Sei que você mora aí, Juliano. Vou visitá-lo. Já estou a caminho. Mesmo sem saber se há caminho de volta.