sábado, 1 de outubro de 2011

eu

Não sei quanto a vocês, mas eu não tenho achado graça nenhuma. Eu sei, vocês são testemunhas e vão me chamar de ingrata, de chata, rabugenta, louca. Eu sei de tudo. Sei onde a graça está. Eu vejo. Mas não acho. Minha atenção está deslocada. Saiu do lugar. E foi pra lugar nenhum. E lugar nenhum é lugar de todos. Não estou sozinha. Mas não posso encontrar ninguém. Queria que soubessem de onde vem meu olhar perdido, a falta de riso, o adeus sem mais. Tento fazer o exercício de retroceder e encontrar o que foi que me possuiu e me deixou assim. Mas não se trata do sofrimento alheio de todos os dias, não se trata da solidão e precariedade dos que acompanho. Não se trata disso. Eles até me aliviam. Eu penso mesmo é que isso é obra do tempo. Muito já passou. Muito já se perdeu. Muito já se sabe – dizer isso me entedia ainda mais, porque eu sei que se trata da mesquinhez melancólica... Queria aquilo do Pessoa, da pessoa nascida a cada instante. Sou nascida há mais de trinta anos. E pior, assumo a condição. Isso torna tudo muito, mas muito sem graça.

Se vocês vissem, a Lara, 5 anos, chorando porque bateu a cabeça na janela, ao ficar de pé nela, desconhecendo o próprio tamanho... ela sim, tem graça. E o Davi, nem um mês de vida, usando toda sua força para levar as mãos até a cabeça, mexer a língua, esticar as pernas, não sair do lugar e por fim balbuciar “agu”... faz chorar!

E eu? Eu aqui, levando eu adiante. Esse projetinho de 31 anos tão sem graça, tão certinho... Porque resumimos a vida ao eu? Estou farta disso. Quero um lugar sem eu... preciso sair do Sério.